Quando o “estranho” é sagrado: tradições que desafiam o olhar ocidental
Imagine acordar numa manhã fria de inverno e perceber que seus vizinhos estão jogando barris em chamas morro abaixo. Ou que a festa mais importante do ano envolve adultos se deixando ser picados por formigas-bala — um dos insetos com a picada mais dolorosa do planeta. Para quem cresceu longe dessas práticas, a primeira reação pode ser de espanto. Mas cultura é exatamente isso: um conjunto de significados construídos coletivamente ao longo de gerações, que fazem todo o sentido para quem os vive por dentro.
O mundo abriga milhares de tradições que, vistas de fora, parecem incompreensíveis ou até chocantes. Algumas existem há séculos e resistem à globalização com surpreendente vigor. Outras passaram por transformações graduais, perdendo elementos mais radicais mas mantendo o núcleo simbólico. O que todas têm em comum é que revelam algo essencial sobre o grupo humano que as pratica — seus medos, seus valores, sua relação com o tempo, com a morte e com o sagrado.
Neste artigo, o Jornal Meia Hora apresenta um passeio por algumas das tradições mais inusitadas que ainda existem no mundo. Sem julgamentos, com curiosidade genuína — porque entender o diferente é o primeiro passo para se entender.
O teste da formiga-bala: rito de passagem dos Sateré-Mawé (Brasil)
Começamos em casa. A Amazônia brasileira abriga o povo Sateré-Mawé, cujo rito de passagem masculino é um dos mais comentados por antropólogos e documentaristas ao redor do mundo. Para ser reconhecido como guerreiro adulto, o jovem precisa usar, por cerca de dez minutos, luvas trançadas de palha recheadas de formigas-bala vivas (Paraponera clavata).
A picada dessa espécie é classificada no índice de dor de Schmidt — escala científica usada por entomólogos para comparar a dor causada por picadas de insetos — como a mais intensa entre todas as espécies estudadas. A sensação é descrita como uma queimação pulsante que pode durar horas. Durante o ritual, espera-se que o jovem não demonstre fraqueza. O processo pode ser repetido dezenas de vezes ao longo da vida.
O que poderia parecer crueldade é, para os Sateré-Mawé, uma forma de preparar o indivíduo para os desafios da vida adulta e da liderança comunitária. O ritual é coletivo, celebrado, e carregado de significado espiritual. Graças à visibilidade dada por documentários e pesquisas, a prática é hoje reconhecida como patrimônio cultural vivo — e não como violência.
Thaipusam: fé, devoção e perfurações no corpo
Na Malásia, em Singapura e em comunidades hindus espalhadas pelo mundo, o festival Thaipusam ocorre anualmente em janeiro ou fevereiro, conforme o calendário tamil. A celebração honra o deus Murugan, filho de Shiva, e inclui uma das práticas mais visualmente impactantes do calendário religioso global.
Devotos chamados de kavadi attam carregam estruturas metálicas elaboradas — os kavadis — presas ao próprio corpo por meio de ganchos e espetos que atravessam a pele, as bochechas e até a língua. A preparação envolve dias de jejum, oração e meditação. Os participantes relatam que, durante o transe devocional, não sentem dor.
O evento atrai centenas de milhares de pessoas em Kuala Lumpur, especialmente nas cavernas de Batu — um complexo de cavernas calcárias que serve de templo. O Thaipusam é simultaneamente uma promessa, um agradecimento e uma demonstração pública de fé. Proibido brevemente em algumas regiões durante o século XX, o festival resistiu e hoje é patrimônio cultural reconhecido.
Día de Muertos: a morte com que se conversa, não se teme
No México, o Día de Muertos (Dia dos Mortos), celebrado entre 1º e 2 de novembro, é talvez a tradição não ocidental mais conhecida internacionalmente — e também a mais frequentemente mal compreendida. Não se trata de um equivalente do Halloween, embora as datas sejam próximas.
A celebração tem raízes nas culturas pré-colombianas, especialmente asteca, e foi mesclada com o calendário católico após a colonização espanhola. Famílias constroem ofrendas (altares) em suas casas e nos cemitérios, decorados com flores de cempasúchil (uma variedade de calêndula), fotos dos mortos, comidas favoritas do falecido e velas. A crença é que, nesse período, os espíritos dos mortos retornam para visitar os vivos.
Longe de ser macabro, o ritual é colorido, barulhento e profundamente afetuoso. Em 2008, a UNESCO inscreveu a tradição indígena mexicana na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Desde então, a visibilidade internacional cresceu — o que traz tanto preservação quanto o risco de folklorização superficial.
La Tomatina e o Holi: o caos como celebração coletiva
Algumas tradições parecem ter como único propósito a desordem alegre. Dois exemplos clássicos:
- La Tomatina ocorre em Buñol, na Espanha, toda última quarta-feira de agosto desde 1945. Toneladas de tomates são jogadas entre os participantes durante cerca de uma hora. A origem exata é disputada — versões incluem desde uma briga de adolescentes até uma brincadeira com um mercado local. Hoje, o evento é regulamentado pela prefeitura e atrai turistas de dezenas de países.
- O Holi, festival hindu celebrado principalmente na Índia e no Nepal, marca a chegada da primavera com uma explosão de pós coloridos jogados entre as pessoas. Com origens mitológicas ligadas à vitória do bem sobre o mal, o festival também celebra o fim do inverno e a fertilidade da terra. Ocorre em fevereiro ou março, conforme o calendário lunar.
Ambos os eventos foram assimilados pela cultura global e hoje possuem versões “temáticas” ao redor do mundo — o que levanta debates sobre apropriação cultural e descontextualização.
Kanamara Matsuri e a fertilidade sem pudores
No Japão, a cidade de Kawasaki sedia anualmente, no primeiro domingo de abril, o Kanamara Matsuri — o “Festival do Pênis de Ferro”. O evento tem origem num templo xintoísta e está ligado historicamente a trabalhadoras sexuais que oravam por proteção contra doenças sexualmente transmissíveis.
Hoje, o festival é uma mistura de devoção religiosa, humor popular e arrecadação de fundos para pesquisa sobre HIV. Estátuas fálicas são carregadas em procissão pelas ruas, e pirulitos e esculturas com o mesmo tema são vendidos como souvenirs. O que poderia soar como escândalo no Ocidente é vivido no Japão com leveza e até certo orgulho local.
O xintoísmo, religião tradicional japonesa, tem uma relação mais direta com a natureza e a fertilidade do que muitas religiões ocidentais, o que ajuda a explicar a ausência de constrangimento. O festival, que inicialmente era pequeno, ganhou enorme popularidade turística a partir dos anos 1980 e 1990.
O Festival de Corrida de Caixões na Filipinas e outras tradições mortuárias
A relação humana com a morte é terreno fértil para as tradições mais surpreendentes. Alguns exemplos do mundo:
- Filipinas (Sagada): O povo Kankanaey tem o costume de pendurar caixões nas laterais de penhascos rochosos. A prática, com séculos de existência, baseia-se na crença de que os mortos ficam mais próximos dos ancestrais e do céu quanto mais altos estiverem. Os caixões mais antigos visíveis em Sagada têm mais de cem anos.
- Indonésia (Tana Toraja): O povo Toraja, em Sulawesi, mantém os corpos dos mortos em casa por semanas ou meses — às vezes anos — enquanto a família reúne recursos para o funeral elaborado. Durante esse período, o morto é tratado como “doente”, recebendo comida e sendo incluído nas conversas familiares. O funeral toraja é uma das cerimônias mais complexas e longas do mundo.
- Madagascar: O ritual Famadihana (“a volta dos mortos”) consiste em desenterrar os ancestrais, enrolá-los em novas mortalhas e dançar com eles ao som de música. A prática é uma forma de manter o vínculo com os mortos e pedir suas bênçãos.
Para saber mais sobre como diferentes culturas enriquecem nossa compreensão do mundo, confira nossa seleção de documentários para aprender: os melhores por tema.
Por que essas tradições ainda existem?
Em plena era da internet e da globalização, é legítimo perguntar: por que práticas tão distantes da norma ocidental sobrevivem? A resposta é múltipla:
- Identidade: Tradições são âncoras de identidade coletiva. Praticá-las é afirmar pertencimento a um grupo e uma história.
- Sentido espiritual: Muitas dessas práticas estão conectadas a sistemas religiosos ou cosmológicos profundos, que continuam fazendo sentido para seus praticantes.
- Resistência: Em contextos de colonização ou pressão cultural, manter tradições é também um ato político de resistência.
- Adaptação: Muitas tradições se adaptaram ao longo do tempo, incorporando novos elementos sem perder o núcleo original.
- Turismo e visibilidade: Em alguns casos, o interesse externo ajudou a revitalizar práticas que estavam em declínio — embora isso também traga riscos de folklorização.
Conclusão: o estranho como espelho

Cada tradição considerada “estranha” é, na verdade, um espelho. Ela revela não apenas o povo que a pratica, mas também os valores e as normas de quem a observa com estranhamento. O desconforto diante de um ritual de perfuração corporal ou de um funeral que dura meses diz tanto sobre nossa própria cultura quanto sobre a alheia.
Conhecer essas práticas não significa aprová-las acriticamente — especialmente quando envolvem coerção ou dano a grupos vulneráveis. Mas o primeiro passo é sempre a compreensão: entender o contexto, a história e o significado antes de julgar. O mundo é mais rico — e mais humano — do que qualquer olhar único consegue abarcar.
Se a curiosidade por culturas diferentes te levou até aqui, talvez você também se interesse pelas cidades históricas do Brasil que encantam qualquer viajante — onde a história e a tradição se encontram em cada esquina.

