O universo é maior do que você imagina: veja por quê

Share

Olhe para o céu estrelado numa noite limpa e tente imaginar o que existe além do que seus olhos alcançam. Difícil, não é? A mente humana foi moldada para lidar com distâncias que cabem em um campo de futebol, numa cidade, num continente. O cosmos, porém, opera em escalas tão absurdas que qualquer comparação do dia a dia parece uma piada. E o mais impressionante é que, quanto mais a ciência avança, mais o universo parece crescer — não porque ele esteja ficando maior, mas porque nossa capacidade de enxergá-lo vai se expandindo.

A boa notícia é que entender o tamanho do universo não exige um diploma em astrofísica. Basta uma boa dose de curiosidade e a disposição para deixar o cérebro explodir (metaforicamente) algumas vezes ao longo da leitura. Prepare-se: os números que você vai ver aqui são reais, verificados pela comunidade científica e, mesmo assim, parecem completamente impossíveis.

Neste artigo, vamos embarcar numa viagem que começa no nosso quintal cósmico — o Sistema Solar — e vai até os confins do universo observável, passando por galáxias, vazios intergalácticos e os limites do que a ciência consegue, até hoje, enxergar.

O Sistema Solar: nosso pequeno quintal

Para começar a ter noção de escala, é preciso partir de casa. O Sistema Solar tem como centro o Sol, uma estrela de tamanho médio cujo diâmetro é de aproximadamente 1,39 milhão de quilômetros. Para ter ideia, você poderia enfileirar cerca de 109 Terras lado a lado ao longo do diâmetro solar.

A distância da Terra ao Sol é de cerca de 150 milhões de quilômetros, uma medida tão usada em astronomia que ganhou nome próprio: a Unidade Astronômica (UA). A luz, que viaja a aproximadamente 300 mil quilômetros por segundo, leva cerca de 8 minutos para percorrer esse trecho.

Mas o Sistema Solar vai muito além dos planetas que aprendemos na escola. A região conhecida como Nuvem de Oort — uma espécie de casca esférica de gelo e rocha que envolve o sistema — se estende por até 100 mil Unidades Astronômicas do Sol. Isso significa que a luz levaria mais de um ano e meio para cruzar toda essa região. E ainda estaríamos dentro do “quintal” do nosso Sol.

A Via Láctea: nossa galáxia, imensuravelmente grande

Saindo do Sistema Solar, entramos na Via Láctea — a galáxia espiral onde vivemos. Ela tem entre 100 mil e 200 mil anos-luz de diâmetro. Um ano-luz, vale lembrar, é a distância que a luz percorre em um ano: aproximadamente 9,46 trilhões de quilômetros.

O Sistema Solar está localizado em um dos braços espirais da Via Láctea, a cerca de 26 mil anos-luz do centro galáctico. Isso quer dizer que, se você pudesse viajar na velocidade da luz, levaria 26 mil anos apenas para chegar ao núcleo da nossa própria galáxia.

A Via Láctea contém entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas. Muitas delas têm planetas orbitando ao redor. Algumas dessas estrelas são muito maiores e mais brilhantes que o Sol; outras são anãs vermelhas minúsculas que brilham fracamente por trilhões de anos. Toda essa diversidade existe dentro de uma única galáxia — a nossa.

Além da Via Láctea: um oceano de galáxias

Se a Via Láctea já parece absurdamente grande, a próxima escala vai te deixar sem chão. O universo observável contém estima-se que entre 200 bilhões e 2 trilhões de galáxias. Esse número foi revisado para cima em estudos publicados a partir de 2016, quando pesquisadores usaram dados do Telescópio Espacial Hubble para concluir que estimativas anteriores subestimavam muito a quantidade de galáxias existentes.

A galáxia mais próxima da Via Láctea é Andrômeda (também chamada de M31), situada a cerca de 2,537 milhões de anos-luz de distância. Ela é visível a olho nu em noites escuras — uma mancha leitosa no céu —, mas está tão longe que a luz que você enxerga hoje saiu de lá há mais de 2,5 milhões de anos, quando nossos ancestrais ainda eram Homo habilis caminhando pela África.

A Via Láctea e Andrômeda fazem parte de um grupo de galáxias chamado Grupo Local, que por sua vez faz parte de uma estrutura maior chamada Superaglomerado de Virgem (ou Laniakea), descoberto e mapeado em 2014 por um time liderado pelo astrônomo Brent Tully. Laniakea contém cerca de 100 mil galáxias e se estende por 520 milhões de anos-luz.

O universo observável: o limite do que podemos ver

Existe uma fronteira prática para o que a humanidade pode observar: o universo observável. Ela não existe porque o universo termina ali, mas porque a luz de regiões mais distantes simplesmente não teve tempo de chegar até nós desde o Big Bang — que ocorreu há aproximadamente 13,8 bilhões de anos.

O raio do universo observável é estimado em cerca de 46,5 bilhões de anos-luz. Isso pode parecer contraditório: se o universo tem 13,8 bilhões de anos, como a luz de 46,5 bilhões de anos-luz de distância chegou até nós? A resposta está na expansão do universo: o espaço em si se expande, de modo que as regiões que emitiram essa luz estavam bem mais próximas no passado, mas se afastaram enquanto a luz viajava.

Essa expansão foi descoberta por Edwin Hubble na década de 1920 e mais tarde foi encontrada acelerando — uma descoberta que rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2011 a Saul Perlmutter, Brian P. Schmidt e Adam Riess. A força responsável por essa aceleração é chamada de energia escura, e ainda não sabemos exatamente o que ela é.

O que existe além do universo observável?

Esta é, talvez, a pergunta mais vertiginosa da cosmologia moderna. O universo observável é apenas a porção do cosmos que podemos, em princípio, detectar. Mas o universo total — aquilo que existe além desse horizonte — pode ser ordens de magnitude maior.

Algumas teorias, como a inflação cósmica, sugerem que logo após o Big Bang o universo passou por uma expansão extremamente rápida, gerando um cosmos muito maior do que a parte que conseguimos observar. Se essas teorias estiverem corretas, o universo total pode ser praticamente infinito — ou pelo menos tão grande que a diferença para infinito é irrelevante na prática.

Existem também especulações científicas, como a teoria do multiverso, que propõe a existência de múltiplos universos além do nosso. Trata-se, por enquanto, de uma hipótese ainda sem confirmação observacional direta, mas que é levada a sério por parte da comunidade científica como consequência de certas interpretações da mecânica quântica e da cosmologia inflacionária.

Curiosidades que colocam tudo em perspectiva

Às vezes, mais do que números, são as comparações que ajudam a sentir o tamanho do universo. Veja algumas:

  • Se o Sol fosse reduzido ao tamanho de uma laranja, a Terra seria um grão de areia a cerca de 10 metros de distância.
  • Nessa mesma escala, a estrela mais próxima do Sol, Próxima Centauri (a 4,24 anos-luz), estaria a cerca de 2.700 quilômetros de distância — algo como a distância do Rio de Janeiro a Buenos Aires.
  • O buraco negro supermaciço no centro da Via Láctea, chamado Sagittarius A*, tem uma massa equivalente a cerca de 4 milhões de sóis.
  • A sonda Voyager 1, lançada em 1977 e ainda em operação, é o objeto humano mais distante da Terra — mas ainda está dentro da esfera de influência do Sol. Ela viaja há quase 50 anos e mal arranhamos a superfície do cosmos.
  • Se você tentasse contar todas as estrelas do universo observável em voz alta, uma por segundo, levaria mais de 3.000 vezes a idade atual do universo para terminar.

Por que isso importa para nós, aqui na Terra?

Pode parecer que entender o tamanho do universo é um exercício puramente abstrato, sem aplicação prática. Mas há razões muito concretas pelas quais essa compreensão importa.

Primeiro, a pesquisa astronômica gerou tecnologias que usamos no cotidiano: GPS, redes sem fio, câmeras digitais e diagnósticos médicos por imagem têm raízes em desenvolvimentos da ciência espacial. Segundo, compreender o cosmos nos ajuda a entender a origem dos elementos que compõem nossos corpos — o carbono, o oxigênio, o ferro que corre no seu sangue foram forjados em estrelas que explodiram bilhões de anos antes de o Sol existir.

Terceiro, e talvez mais profundamente: saber que vivemos em um pálido ponto azul, orbitando uma estrela comum, numa galáxia entre trilhões de outras, reorienta nossa perspectiva sobre o que é importante — e nos convida a cuidar melhor do único lar que, até agora, sabemos que temos.

Conclusão: a curiosidade como bússola

O universo é maior do que você imagina: veja por quê - Conclusão: a curiosidade como bússola

O universo é, por qualquer medida razoável, incompreensivelmente grande. Nosso Sistema Solar é uma poeira dentro da Via Láctea, que é uma poeira dentro do universo observável, que pode ser uma poeira dentro de algo maior que ainda não temos palavras para descrever. E tudo isso é real — não ficção científica, não especulação vaga, mas ciência construída ao longo de séculos por mentes brilhantes usando telescópios, matemática e uma quantidade heroica de paciência.

A grandeza do cosmos não precisa causar angústia. Pode causar, ao contrário, admiração — aquela sensação de que o mundo é muito mais rico e estranho do que a rotina deixa transparecer. Cada vez que olhamos para o céu estrelado, estamos olhando para o passado: a luz das estrelas que vemos hoje saiu de lá há anos, décadas, séculos ou milênios. Somos, de certa forma, arqueólogos do tempo sempre que erguemos os olhos.

Se este artigo despertou curiosidade por outros temas fascinantes do cotidiano e da tecnologia, você pode gostar também de saber como manter suas fotos seguras no celular — porque, afinal, registrar os momentos da nossa pequena vida aqui na Terra também tem o seu valor imenso.

Mais Lidas

Local News