O Brasil tem uma fama mundial muito bem merecida: praias paradisíacas, Amazônia exuberante, o Carnaval do Rio de Janeiro. Mas quem reduz o país a esses cartões-postais está perdendo uma fatia enorme do que essa terra continental tem a oferecer. Com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 26 estados com paisagens, culturas e histórias completamente distintas, o Brasil guarda dezenas de destinos que raramente aparecem nos roteiros turísticos convencionais — e que, justamente por isso, oferecem experiências muito mais autênticas e, muitas vezes, mais acessíveis ao bolso.
A boa notícia é que o interesse por esse tipo de turismo vem crescendo de forma consistente. Viajantes brasileiros e estrangeiros buscam cada vez mais fugir da saturação dos destinos óbvios e descobrir lugares onde a relação com a natureza, a gastronomia local e a cultura regional ainda estão quase intactas. Se você ainda não saiu do eixo Rio-São Paulo-Nordeste famoso, este guia foi feito para você.
Nas próximas seções, vamos apresentar destinos que vão do extremo Norte ao extremo Sul, passando pelo coração do Cerrado e pelo interior do Nordeste. Pegue o mapa e prepare-se para repensar o que você sabe sobre viajar pelo Brasil.
O Jalapão: o deserto de ouro no coração do Tocantins
Poucos nomes evocam tanta aventura quanto o Jalapão, região localizada no estado do Tocantins, no Brasil Central. Trata-se de um dos destinos de ecoturismo mais impressionantes do país, ainda assim desconhecido de grande parte dos brasileiros.
O Jalapão é marcado por dunas de areia avermelhada, serras, veredas de buritis e, o detalhe mais fotogênico, as chamadas fervedouros — nascentes de água cristalina em que a pressão natural da água impede que o banhista afunde, criando uma sensação de levitação. O fenômeno é raro no mundo e é uma das atrações mais singulares do Brasil.
A melhor época para visitar é o período seco, entre maio e setembro, quando os rios estão com nível ideal e as estradas de terra — que exigem veículo 4×4 — estão mais transitáveis. A cidade de base mais utilizada é Palmas, capital do Tocantins, de onde partem as excursões organizadas.
O que não perder no Jalapão
- Fervedouro do Ceiça e Fervedouro da Toca: os mais famosos e acessíveis
- Dunas do Jalapão: perfeitas para o pôr do sol
- Cachoeira da Velha: uma das maiores quedas d’água em leito rochoso do país
- Serra do Espírito Santo: mirante natural com vista panorâmica do Cerrado
Lençóis Maranhenses: o deserto que floresce
Sim, os Lençóis Maranhenses já são mais conhecidos do que o Jalapão — mas ainda assim estão longe de receber a atenção que merecem. Situados no litoral oeste do Maranhão, o parque nacional é formado por extensas dunas de areia branca que, no período chuvoso (entre julho e setembro), acumulam lagoas de água doce de tonalidades que vão do verde ao azul-turquesa intenso.
O fenômeno é improvável: chuva forte em uma região de dunas, sem que a água escoe com facilidade por conta da impermeabilidade do solo. O resultado é uma paisagem que parece ter saído de outro planeta.
A cidade de entrada mais utilizada é Barreirinhas, no Maranhão. De lá, é possível fazer passeios de jipe e barco pelo Rio Preguiças, chegando até o vilarejo de Caburé, onde o rio encontra o mar. A capital São Luís, a pouco mais de 250 km, é patrimônio histórico da UNESCO e combina muito bem com o roteiro.
Serra Gaúcha: Europa dentro do Brasil
Quem visita a Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, fica com uma sensação curiosa: será que ainda estou no Brasil? A colonização italiana e alemã a partir do século XIX deixou marcas profundas na arquitetura, na culinária e até no sotaque da região.
Gramado e Canela são as cidades mais famosas, conhecidas pelo Natal Luz (tradicional festival de inverno) e pela produção de chocolate artesanal. Mas o grande segredo da Serra está nos arredores: a Serra Gaúcha abriga vinícolas de nível internacional concentradas principalmente na chamada Vale dos Vinhedos, que em 2012 se tornou a primeira região brasileira a receber a denominação de origem controlada para vinhos.
Por que ir além de Gramado
- Bento Gonçalves: capital brasileira do vinho, com passeios de Maria-Fumaça pelos vinhedos
- Nova Petrópolis: arquitetura colonial alemã e o maior jardim público do estado
- Cambará do Sul: porta de entrada para o Parque Nacional Aparados da Serra, lar dos Cânions do Itaimbezinho e Fortaleza
- Antônio Prado: cidade com o maior conjunto de imóveis históricos em madeira tombados pelo IPHAN
Os cânions do Itaimbezinho são, por si só, um dos espetáculos geológicos mais imponentes do Brasil: paredes rochosas de até 720 metros de altura, cobertas de vegetação, com quedas d’água que se dissolvem em névoa antes de tocar o fundo.
Chapada dos Veadeiros: o coração espiritual do Cerrado
Localizado no estado de Goiás, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é patrimônio natural da UNESCO desde 2001 e um dos destinos mais especiais do Brasil Central. A região fica no chamado Planalto Central, em altitudes que chegam a 1.650 metros, o que cria um microclima mais fresco e uma biodiversidade notável.
As cachoeiras são o grande atrativo: Cariocas, São Bento, Catarata dos Couros e o complexo de piscinas naturais do Rio Preto estão entre as mais visitadas. A vila de Alto Paraíso de Goiás funciona como base e tem uma cena cultural alternativa bastante consolidada, com hostels, restaurantes vegetarianos e feiras de artesanato.
A Chapada também atrai praticantes de trilhas de longa distância: o Caminho dos Veadeiros é uma rota multi-etapas que atravessa paisagens de Cerrado nativo, comunidades quilombolas e antigas fazendas históricas.
Pantanal: o maior santuário de vida selvagem das Américas
O Pantanal é tecnicamente conhecido por quem se interessa por natureza, mas ainda é subestimado como destino turístico. A maior planície inundável do mundo, compartilhada entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e parte da Bolívia e do Paraguai, oferece as melhores condições do planeta para observação de onças-pintadas em vida livre.
Ao contrário da Amazônia, onde a densa vegetação dificulta o avistamento de animais, o Pantanal tem uma vegetação mais aberta que favorece o ecoturismo fotográfico. A Transpantaneira, estrada de terra com mais de 100 pontes de madeira que liga Poconé a Porto Jofre (MT), é um roteiro clássico onde é possível ver jacarés, capivaras, tuiuiús, ariranhas e, com paciência e sorte, a onça-pintada.
As pousadas rurais da região — chamadas de pousadas de fazenda — são parte fundamental da experiência: muitas delas operam há décadas com guias especializados em fauna e flora local.
Marajó e o arquipélago do Pará: Amazônia além de Manaus
Quando se fala em Amazônia, o imaginário coletivo vai direto para Manaus, no Amazonas. Mas o estado do Pará guarda tesouros igualmente impressionantes e muito menos explorados pelo turismo nacional.
A Ilha de Marajó, maior ilha fluviomarítima do mundo, localizada na foz do Rio Amazonas, tem uma identidade cultural fortíssima. A ilha é conhecida pelos búfalos que transitam livremente pelas ruas de algumas cidades, pelo artesanato em cerâmica marajoara (com padrões geométricos de origem indígena pré-colombiana) e pelas praias de água doce.
Mais ao sul, o Arquipélago do Marajó e as praias fluviais de Alter do Chão, no município de Santarém, são frequentemente comparadas às melhores praias de mar do Nordeste — com a vantagem de estarem dentro do Rio Tapajós, de águas límpidas e temperatura agradável. A “Caribe Amazônico”, como é chamada, atrai cada vez mais visitantes que chegam pelos voos diretos para Santarém.
Como planejar uma viagem fora do óbvio: dicas práticas
Viajar para destinos menos convencionais exige um planejamento um pouco mais detalhado. Veja os principais pontos de atenção:
- Pesquise a sazonalidade: cada destino tem uma janela ideal. Jalapão e Pantanal funcionam melhor no seco; Lençóis Maranhenses exigem o período chuvoso para as lagoas.
- Verifique a infraestrutura local: em destinos como Jalapão e Pantanal, estradas de terra e veículos 4×4 são necessários. Planeje com antecedência.
- Prefira guias locais: além de apoiar a economia regional, guias locais conhecem detalhes que nenhum aplicativo vai te mostrar.
- Respeite as áreas de proteção: muitos desses destinos são parques nacionais ou áreas de preservação ambiental. Informe-se sobre as regras antes de entrar.
- Reserve com antecedência na alta temporada: pousadas em locais remotos têm capacidade limitada e costumam esgotar meses antes.
- Considere combinações de roteiro: Lençóis Maranhenses + São Luís, Chapada dos Veadeiros + Brasília, Serra Gaúcha + Cânions do Sul são combinações que otimizam tempo e custo de passagem.
Conclusão: o Brasil que você ainda não conhece está esperando

O Brasil é um país de dimensões continentais, e explorar apenas seus destinos mais famosos é como ler apenas a capa de um livro extraordinário. Do fervedouro flutuante do Tocantins às paredes de basalto dos cânions gaúchos, do Cerrado místico de Goiás ao Caribe de água doce do Pará, há um Brasil que poucos conhecem — e que recompensa enormemente quem se dispõe a descobri-lo.
Além da experiência em si, viajar para destinos menos saturados tem um impacto positivo no desenvolvimento local, fortalecendo comunidades que dependem do turismo sustentável para preservar tanto o meio ambiente quanto sua própria cultura.
Se você quer aprofundar o conhecimento sobre a natureza e a história desses lugares antes de partir, os documentários para aprender: os melhores do momento podem ser um ótimo ponto de partida para se preparar para a viagem — e aproveitar cada detalhe com muito mais consciência.
O mapa do Brasil é enorme. E a melhor parte ainda está por ser descoberta.

